PAPO DE CANOÍSTA: Atleta da escalada sofre lesão e encontra ‘conforto’ na canoagem

“Minha história na canoagem começou após uma grave fratura no tornozelo direito, ocorrida em 2016, enquanto eu escalava”, relata Camila, entrevistada na coluna Papo de Canoísta.

A entrevistada da coluna Papo de Canoísta é Camila Ciasca Prosdocimi, 29 anos, Veterinária e, atualmente, morando em Itu, no interior de São Paulo. Camila sempre praticou muito esporte. Na escola, quando pequena, fez balé, natação, futebol e vôlei. Também andou muito a cavalo. Durante a adolescência praticou hapki-do, passou um pequeno período pela Yôga e nadou durante os 5 anos de faculdade. Ficou um período sem praticar esportes e, em 2015 começou a escalar.

Camila literalmente viciou no esporte e, com a facilidade de morar no Rio de Janeiro e ter escalada dentro da cidade, entre um plantão e outro, escalava de 3 a 5 vezes na semana. Sua história na canoagem começou após uma grave fratura no tornozelo direito, ocorrida em 2016, enquanto escalava. O acidente ocorreu no final da escalada, a cerca de 100 metros de altura, quando quebrou uma agarra de pedra, enquanto guiava, no morro do Cantagalo.

Durante a queda (calcula-se de 6 a 8 metros), seu pé “quicou” na parede, sofrendo uma torção com impacto, que praticamente implodiu seu osso. Fraturou a tíbia, fíbula e maléolos, na base articular. Camila perdeu 50% de cartilagem e boa parte da tíbia distal. Por causa do acidente, criou um blog, aonde compartilha toda a sua história na escalada comerdormirescalar.wordpress.com. Passou por três cirurgias e, desde a última, ocorrida há seis meses, seu quadro piorou. Atualmente, convive com uma artrose pós-traumática, usa muletas e tem diversas limitações, além de muita dor.

Enquanto aguarda novas cirurgias, segue remando! Camila costuma dizer que “a canoagem é um repouso para meu pé. É me sentir ativa, de igual pra igual”. Também criou uma página no Instagram (@v6epicgirl) voltada apenas para a canoagem, a fim de compartilhar a sua rotina de treinos, viagens e projetos ligados ao esporte.

Sestaro Canoagem: Como você conheceu a Canoagem? Já tinha tido contato com esporte aquático anteriormente?

Camila Prosdocimi: De esporte aquático, somente natação… A única vez que tive interesse em remar, foi pouco antes de começar a escalar. Eu tinha vontade de praticar remo (barco a remo), pois morava no Rio e uma amiga remava no clube do Vasco. Desisti do esporte quando o treinador do time disse à ela que eu era muito velha. Na época, eu tinha 25 anos.

Voltei o contato com a canoagem, fazendo fisioterapia, quando meu fisioterapeuta Ricardo Padovan, durante as sessões, contou sobre suas travessias de surfski. 1 ano e meio depois, após passar pela terceira cirurgia e impedida de escalar, aceitei buscar outro esporte. Dois amigos haviam feito o curso de canoagem oceânica com o Fuchs e me convidaram para viajar e remar.

Com eles, no dia 22 de dezembro de 2017, remei pela primeira vez. Ao primeiro contato, senti medo e insegurança, afinal, era um esporte novo pra mim e, além disso, sempre tive medo de ser atacada por “animais aquáticos”. Não demorou muito para ganhar confiança e o passeio fluiu melhor do que eu imaginava. Fizemos a travessia Cananéia – Ilha do Cardoso – Cananéia e quando vi, logo de início, já havia remado 15km.

A primeira vez no mar e em um caiaque oceânico sem leme, a gente nunca esquece! Voltei da viagem já com a data do curso marcada e, depois disso, não parei mais.

SC: Acredita que a Canoagem está servindo como reabilitação para seu pé?

CP: Considerando que enquanto remo não ocorre impacto, carga ou pressão no tornozelo direito, digo que é o único esporte que consegue me deixar em repouso e, ao mesmo tempo, me manter ativa. Quanto mais eu remo, menos dor eu sinto, por ficar mais tempo sentada e, consequentemente, mais tempo sem movimentar o pé.

SC: Qual seu equipamento hoje? E você mantém algum plano de treinamento ou apenas rema por lazer?

CP: Tenho um v6 da Epic. Escolhi esse modelo por ser híbrido: surfski com compartimento de carga, ou seja, autonomia na realização de travessias, com o conforto e praticidade do surfski. O cockpit sit on top também pesou na hora de escolher. O caiaque oceânico machucava meu calcanhar direito, pela posição que ficava, então não me adaptei ao barco.

Por morar no interior de São Paulo e a pelo menos duas horas e meia do mar, remo na Represa de Itupararanga, em Votorantim, que fica a 60km de casa. Remo pelo menos de quarta, sábado e/ou domingo. Não tenho ainda treino definido certinho, mas gosto de incluir um treino longo e regenerativo, em pelo menos um desses dias. Nos dias que não remo, vou na academia, nado, faço bike indoor e musculação, que me ajudam muito no fortalecimento do corpo, mas principalmente do tornozelo.

A lazer, esses dias, tive meu segundo contato com o mar, remando. Desta vez, foi em Santos. Lá senti, pela primeira vez, os enjôos de ondas mais altas, vi movimentações próximas à mim sem saber o que era, remei forte até o coração sair pela boca pra passar antes do navio e, principalmente, fiz muitas amizades. Nos 4 dias que remei em Santos, conheci a praia do Góes, do Cheira-Limão, praia do Sangava, praia do Moisés (que fui dois dias seguidos), Rio do meio e da Pouca Saúde. Experimentei, rapidamente, o surfski do Fernando, um ciclone, da Evolution. Muito mais “arisco” que o meu, só consegui me entender com o bichinho, após vários caldos. Me aventurei também, por alguns metros, na canoa havaiana do Falcão. Nunca havia remado uma, mas achei bem legal a experiência!
Pretendo fazer mais expedições ao longo do ano, inclusive a circunavegação da Ilha Grande.

SC: Quais são seus planos para o futuro? Tem algum objetivo de competir na Canoagem?

CP: Vou participar do Aloha Spirit para conhecer o festival, mas vou sem pretensões, já que não estou com o barco ideal para uma competição.  Tenho alguns projetos para expedições e, em abril, comemorando 4 meses de canoagem, planejo fazer a travessia Cananéia – Ilha das Peças – Cananéia. Esse desafio foi lançado pelo Adelson Carneiro, depois que remei 46km em 6 horas, na represa de Itupararanga, com menos de dois meses de canoagem.

Depois desse dia, vi que tinha preferência por remadas longas e desafios.  Tenho interesse em participar do Kialoa (20km) e da volta da Ilha de Vitória (30km). Tudo vai depender das minhas próximas cirurgias de reconstrução do tornozelo.  Recentemente, tive o convite para uma expedição desafiadora em vários aspectos, mas principalmente pela condição meteorológica e quilometragem alta (quase 500km), porém ainda é apenas um projeto e acredito que até lá, eu já tenha mais experiência. Se rolar, com certeza, compartilharei a vivência.

SC: Caso queira, deixe alguma mensagem para incentivar outras pessoas a buscar reabilitação ou mesmo somente lazer com a Canoagem.

CP: Costumo dizer que a canoagem me salvou e me proporcionou olhar a vida mais positivamente. Eu estava muito triste e negativa, sofrendo muito com as dores, com o impedimento de escalar e de ter uma vida “normal”. A canoagem me mostrou que é possível agir de igual pra igual, sem ninguém ficar olhando o seu “defeito”. Isso significou muito para mim.
Com a canoagem, vivo momentos sem dor, além do prazer enorme de conhecer lugares novos. Ela sempre proporcionará muitas viagens incríveis e momentos inesquecíveis. A canoagem é simplesmente apaixonante!