Conheça a IKAIKA AWIWI, a 1ª canoa OC6 Unlimited fabricada no Brasil


A canoa Ikaika Awiwi nasceu de uma necessidade que seu criador, Paulo Gatti, tinha de conhecer cada vez mais a fundo o universo da Canoa Polinésia.

Há alguns anos, quando começou a remar de Stand Up Paddle, Paulo Gatti sentiu a necessidade de aprender a remar de canoa para aprimorar a técnica de remada, pois já havia sido apresentado a canoa pelo seu amigo Alexey Bevilacqua (KANALOA – Florianópolis).

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A partir deste momento, aflorou uma imensa paixão pela canoa em Gatti, e cada vez mais sentiu a necessidade de aprofundar seus conhecimentos e habilidades. Primeiramente, após algumas viagens para o Hawaii onde conheceu, hoje seu amigo e fonte de inspiração John Puakea – Um dos maiores construtores de canoas OC6 Unlimited e Oc1 (PUAKEA DESIGN) e seu pai Uncle Bob (PUAKEA FOUNDATION ) – começou construindo seus remos de madeira, e então também começou a ter o desejo de construir sua própria canoa.

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Aproveitando para unir ainda mais a família Gatti à família Santacreu, na qual já havia uma relação muito profunda, pois todos Santacreu haviam sido apresentados a cultura e técnica de remada por Paulo Gatti, neste momento Gatti e Arthur Santacreu, Engenheiro Estrutural – formado pelo ITA, iniciaram uma parceria.

Paulo Gatti criou e desenhou o projeto da Oc6 Unlimited brasileira e Arthur fez todos os cálculos estruturais. Ambas esposas, filhos e filhas colaboraram em parte da construção, desta forma criando uma relação muito intensa entre eles e a canoa, passando à canoa, o “Mana” – poder divino necessário, mantendo desta forma uma tradição milenar entre canoa e família.

Criaram assim uma empresa chamada BLK.co, para construir remos, canoas e pranchas, que já estão sendo usadas pelo atleta top ranking Arthur Santacreu (filho), tanto a prancha quanto os remos e a canoa foram construídos com matérias como tecido de carbono, resina epoxy, eps e espuma divinycel.

Leia aqui como foi a 7ª edição do Desafio da Volta de Santo Amaro

A canoa foi batizada com o nome de IKAIKA AWIWI, que do havaiano significa forte e veloz. Em 2015, no VIIº Desafio de Volta a Ilha de Santo Amaro, foi o primeiro teste desta canoa. Esta que ficou pronta uma semana antes e ainda não havia entrado no mar, mostrou ser Ikaika (forte) nas condições que enfrentaram no mar na segunda parte da prova, entre Guaruja e Santos, e também Awiwi em todos momentos que necessitamos de velocidade.

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Paulo e seu sócio Arthur estão muito contente com a canoa, e pelo que ouviram dos atletas que remaram junto na estréia, o projeto está sendo um sucesso. Os atletas que aceitaram o convite para formar um time de última hora, para enfrentar este desafio e servir de pilotos teste para este projeto pioneiro no Brasil, foram banco #1 José Paulo, #2 Henrique Barta; #3 Luís Cláudio Negrini, #4 Paulo Gatti, #5 Givago Ribeiro e #6 Alexey Bevilacqua.

Leia aqui o relato que Alexey Bevilacqua publicou em seu perfil no Facebook, sobre este primeiro desafio:

“IKAIKA AWIWI

O Caminhante da vida cotidiana partiu em busca da aventura. Ao longo da tortuosa jornada passou por áreas sombrias, pantanosas, lutou contra feras e monstros, foi auxiliado pelo sobrenatural e encontrou com a Deusa. Retornou ao seu mundo portador da nova verdade, o velocino de ouro, a cabeça da medusa, capaz de alterar os rumos de seu antigo mundo.

Este é o enredo básico em torno das façanhas de diversos heróis mitológicos. No fim, as mitologias trazem, metaforicamente, verdades absolutas que permeiam sutilmente aspectos da vida cotidiana.

E como no desenvolvimento cognitivo e motor de um bebê, a vida é movida por diversos ciclos composto de polaridades positivas e negativas, de uma mesma energia, formando a Espiral da Vida.

O bebê após desenvolver uma nova habilidade e competência, regride a um patamar inferior da espiral, lá permanece por certo tempo até o desenvolvimento das bases de uma nova fase ascendente, onde uma nova habilidade a ser expressada.
Acredito, tenha sido neste contexto que a IKAIKA AWIWI tenha nascido.

Há alguns meses atrás recebi uma breve mensagem com uma foto, “ela está nascendo”.

Dada a amizade e proximidade a ‘Ohana Puakea logo pensei, “sim uma PUAKEA está sendo construída no Brasil”.

Muito mais meses se passaram e agora estava me preparando mental e espiritualmente para poder participar novamente da Volta a Ilha de Santo Amaro (77km), que agora em minha 5a participação seria em V1. Sentia a necessidade do próximo nível do desafio e da experiência conquistada.

E como a voz que em 2002 me alertou a retornar duas quadras para então comprar uma edição especial da National Geografic sobre o Hawai’i e iniciar minha Jornada na Wa’a, o Chamado ocorreu com a mensagem “a IKAIKA AWIWI ficou pronta”! E só havia uma resposta possível, “e então, vamos colocá-la na água na Volta da Ilha na semana que vem?!”

Para tal precisaríamos reunir um time de Braddahs, pessoas as quais independente do tempo que se passe, ou das experiências vividas, quando chamadas, estarão na água com a mesma intensidade, abraçando a morte com a mesma intensidade que vive a Vida, Ka mate, ka ora!

E como tudo na Vida, o planejamento inicial serve apenas para servir de base aos ajustes necessários. Seguiríamos todos ao encontro com a IKAIKA AWIWI, cada um de sua cidade, por seus meios e tempos próprios, sabíamos, no entanto, que Ela estaria lá nos aguardando.

Chicken skin! Ao ver e tocar a Canoa pela primeira vez e ao saber que aquela não era uma PUAKEA, era sim uma Canoa 100% Brasileira no desenvolvimento e produção, minha pele não parava de arrepiar!!! Sim, tive a certeza, temos que entrar na água com ela. É como qualquer animal selvagem, num dado momento ele romperá as barreiras e buscará a liberdade do horizonte infinito.

Faríamos agora o caminho inverso das Bandeiras. Descíamos a território Tupinambá e ao lado do Fortim de São Tiago da Bertioga a IKAIKA AWIWI tomava sua forma definitiva. 14 meses se passaram para ali ela estar naquela noite, pronta, ao luar, a encontrar as águas do Canal de Bertioga, continente, fronteiriço à Ilha de Santo Amaro, palco das aventuras de Hans Standen em terras brasilis e da partida de Estácio de Sá para a expulsão definitiva dos Franceses da Baía de Guanabara.

Nada contra Remy, rsrsrsrs, apenas história!!!!

No mar ela singrou em silêncio para encontrar na costa da Ilha de Santo Amaro peixes, rochedos e tartarugas. Ao luar, difícil foi divisar o real do lúdico. Sim ela tinha vida e vontade próprias, até que ponto nosso remar era responsável por seu deslocamento e navegação?

De volta a terra encontramos mais membros da Hui Hoe e agora era jantar e achar um local para pousar.

Ao dia seguinte os planos iniciais de curtir a remada foram interpelados ao ser avistada a Equipe adversária. Guerreiros dignos de admirável respeito. Como dizia um amigo “na Vida não há lanche grátis”! A brincadeira seria séria e o embate inevitável. Mais uma vez seríamos colocados a teste, para no Mar e na adversidade forjarmos nosso carácter e Alma.

Na água a IKAIKA AWIWI encontrou sua Irmã de longínquo continente, a OZONE. A tração foi logo instantânea no início do contorno da Ilha de Santo Amaro, mas com uma breve “espetada” que lembrou filmes épicos de carruagens no Coliseum, restou-nos apenas aproveitar o que o mar e o costão nos oferecia para seguir nosso caminho ao Canto do Tortuga, a 20km no litoral do Guarujá. Intensas chuvas e fortes rajadas de vento nos interpelaram. Blessing Hawaiiano veio para dissipar a dor e o peso específico do passado. Nova fase iniciava-se e o Guardião do Caminho e o Senhor dos Mares nos colocaria a teste uma vez mais.

Do Canto do Tortuga podia-se ver ao longe pequenos dentes de serra, o mar ali oferecia algo que não estava disponível naquela baía abrigada. Este algo ganhava força e piorava de condição quanto mais adentrávamos ao domínio da Monduba. Buscamos o abrigo na Ilha da Moela na esperança de a partir dali realizar o tão sonhado downwind, mas logo ficou claro, não haveria prazer ou descanso, a batalha seria longa e intensa. Para piorar a situação, interna e emocional, nossa honrada adversária encontrava-se navegando bem e numa linha mais adentro do que a nossa, ao que parecia a frente também. No contorno da Monduba sentimos a oportunidade optando por uma navegação mais próxima da costa. Mas a partir dali os termos da batalha seriam ditados por um oponente tão forte e incansável que a competição envolvida teve fim. Agora remávamos na tentativa de chegar seguros em terra para no fim revermos nossos familiares.

Na Monduba o mar adquiriu feição bestial, de humor tempestivo. Em duas outras situações similares e passadas, minhas Canoas ficaram ao sabor das marés, retornamos vivos mas com marcas tão profundas na Alma, que agora a herança se traduzia em calma, habilidade de negociação e resiliência. Defini-se aqui a resiliência por uma experiência similar a suportar 1 round com Muhammad Ali e poder sair do ring rastejando e feliz da vida por poder voltar para casa.

Dadas as condições, seguir para Praia Grande parecia a melhor opção! Mas na verdade não havia opções, íamos para onde conseguíamos ir, fazíamos nosso melhor e não parecia grande coisa. E quando Praia Grande parecia próxima o swell ordenava-se para Santos via a Ponta Grossa e Ilha das Palmas. Ladeira abaixo ou seja lá o que fosse, por vezes a IKAIKA AWIWI pareceu uma locomotiva desgovernada, descendo morras, mas na maior parte das vezes, fomos atropelados por incontáveis montanhas d’água. Carneirinhos tomaram forma de búfalos brancos que já nos engoliam a muito. Me arrependi por não levar as saias, esgotadores de água. As bombas de porão pareciam não dar conta e um pequeno balde de margarina foi fiel escudeiro de nosso banco #1, diz aí Zé!!!

Quanto mais nos aproximávamos de Santos mais ordenado e calmo o mar tornava-se. O instinto de sobrevivência aos poucos foi substituído pelo da competição. Fantasmas intangíveis agora nos assombravam e chegando à Praia do Goes a hora da verdade seria revelada. Se a OZONE estivesse em praia, desculpas deveria a minha Guarnição pela má navegação, caso contrário, teríamos de fato realizado um bom trabalho em água? E lá a IKAIKA AWIWI aportou segura, tínhamos realizado um bom trabalho. Contentes por todos que chegaram em segurança, mas apreensivos pela possibilidade de outros não terem conseguido o mesmo.

No fim do 1o dia pudemos vivenciar os dois lados da Energia, AWIWI (veloz) na 1a perna e agora IKAIKA (forte) suportando ataques implacáveis do mar.

O 2º dia seria uma história totalmente diferente, flat, quente, corrente de maré, vento contra e bancos de areia dificultando a navegação. Ponta da Praia-Caruara (28km) e os 7km finais novamente ao Fortim de São Tiago de Bertioga.

77km realizados em 06:15’:00″ de travessia. Vitória em três das quatro etapas do Desafio com 19 minutos de vantagem sobre a Guarnição da OZONE. A propósito, sólidos, duros e incansáveis Remadores, dignos da bela batalha que se formou em água nestes dois dias.

Voltamos para casa e a IKAIKA AWIWI continua singrando nossos Sonhos e Alma até o dia em que poderemos estar juntos em água novamente!

Aloha ke Akua, Mahalo ke Akua IKAIKA AWIWI!

Mahalo Nui Loa aos Monstros na Canoa #1 José Paulo, #2 Henrique Barta; #3 Luís Cláudio Negrini, #4 Paulo Gatti (Designer e Construtor da Canoa) e #5 Givago Ribeiro, Moamoa Seat #7 Gustavo Carvalho; as ‘Ohanas Gatti e Santacreu pelo apoio em terra e pelo desenvolvimento e construção da IKAIKA AWIWI; para a Organização e Apoiadores do Desafio (‘Ohana Riesco e Crew), ao time parceiro de batalha, SAMU Master, pelos belos entraves em água em alguns momentos e remadas pela sobrevivência em outros. E a minha Família Fassina-Bevilacqua por serem minha motivação ao retorno seguro para a terra.

Ahui hou,
Alexey”

Texto de Paulo Gatti, Alexey Bevilaqua.
Fotos de Gilmar Domingos de Oliveira.