Paulistano de 39 anos remou 200 km em 10 dias, ligando a Costa Verde ao Litoral Norte de São Paulo
Movido pela paixão por expedições e histórias de exploração, o paulistano Felipe Favarão, 39 anos, concluiu uma travessia solo de caiaque oceânico de Paraty (RJ) a Ilhabela (SP). A expedição percorreu cerca de 200 km em 10 dias, com saída da Praia do Jabaquara, em Paraty, no dia 5 de maio, e chegada a Ilhabela no dia 14 de maio.
A expedição reforça uma ideia que Felipe faz questão de transmitir: o mar pode ser usado como caminho para superar desafios pessoais, desde que com planejamento, leitura técnica e respeito pelas condições reais.








A segurança da expedição se apoiou inteiramente no planejamento prévio e no critério do próprio canoísta. As condições de mar, maré e tempo eram consultadas em sites e aplicativos de meteorologia como o Windguru e o Windy, e a decisão de avançar ou não dependia das condições reais observadas.
“O mar permite que a gente supere grandes desafios pessoais, mas isso só vale se vier com planejamento e segurança. Não dá para arriscar a vida em nome de uma aventura”, afirma Felipe.
Houve dias em que o mar estava com ondulação grande, mas a estratégia compensava isso com paradas planejadas em ilhas e praias mais abrigadas ao longo da rota. A logística era pensada com antecedência justamente para permitir avanço seguro mesmo em condições mais desafiadoras. Na Praia do Estaleiro, em Ubatuba Felipe precisou permanecer um dia a mais por conta do vento contra e mau tempo, e a decisão de esperar acabou se mostrando acertada.
A escolha do mês de maio também foi estratégica. O período de outono no litoral sudeste costuma oferecer temperatura mais amena e menos chuva, com tempo mais firme e ventos mais previsíveis, condições favoráveis para uma travessia longa e exposta.
Experiência prévia
Com dez anos de experiência em canoagem oceânica, Felipe já havia acumulado expedições que o prepararam para o feito mais recente. Entre elas, a circumnavegação da Ilha Grande em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro (110 km em 5 dias), a travessia de Guarapari a Marataízes, no Espírito Santo (100 km em 5 dias), e a travessia de Porto Seguro a Prado, na Bahia (120 km em 6 dias).
“Sempre fui apaixonado por expedições de exploração e aventura. Leio sobre o tema desde as grandes navegações portuguesas e espanholas, passando pelos tupinambás, que eram excelentes remadores no litoral norte de São Paulo, até navegadores modernos como Amyr Klink e Aleixo Belov”, conta Felipe.
O caiaque
A travessia foi feita a bordo de um Itairu, caiaque oceânico fabricado pela Uiba Ui Caiaques, em Recife. Construído em fibra de vidro, o modelo tem 5,10 m de comprimento, 58 cm de largura, pesa 22 kg e suporta até 130 kg de carga. Três compartimentos estanques, um na proa e dois na popa, acomodaram barraca, alimentação, roupas e itens de segurança para os dez dias de viagem.
Segundo Felipe, o caiaque atendeu bem todas as exigências da travessia. “Tem ótima velocidade de cruzeiro, boa estabilidade, e o conforto interno permite remar horas seguidas sem precisar sair. Em alguns dias remei mais de quatro horas sem paradas. Em ondas, em nenhum momento senti que o caiaque poderia virar, e mesmo que isso acontecesse com técnicas de auto-resgate é possível voltar para dentro dele novamente.”
O percurso
O objetivo era remar entre 20 a 35 km por dia, fazendo paradas nas praias mais isoladas e bonitas do caminho. A rota seguiu a sequência natural da costa, com pernoites no Saco do Mamanguá, Pouso da Cajaíba, Ponta Negra, Camburi, Praia do Estaleiro, Ilha Anchieta e Caçandoca, antes da chegada final a Ilhabela.
O trecho contempla alguns dos pontos mais desafiadores da canoagem oceânica no Sudeste. A travessia da Ponta da Juatinga é conhecida pela exposição ao mar aberto, ventos e pelas ondas fortes que batem no costão de pedra, criando turbulência nas águas. Outro trecho que exige atenção está entre a Praia da Trindade e a Praia do Camburi, com incidência de ventos fortes e mar agitado por causa da costa rochosa. De forma geral, os trechos com costão de pedra ao longo de todo o percurso exigem atenção e tomada de decisão constante.
“O que mais me surpreendeu foram as belezas naturais: praias, Mata Atlântica, ilhas, paisagens, e as pessoas que sempre apareceram para ajudar pelo caminho”, relata. “A gente esquece como somos privilegiados por ter tudo isso num só lugar.”
O que vem pela frente
Concluir um trecho como esse da costa brasileira desperta naturalmente o interesse de conhecer outras partes do litoral. Felipe já tem novas rotas em fase de planejamento para os próximos anos, entre elas de Ilhabela a Santos, completando o litoral norte paulista, de Cananéia à Ilha do Mel, e de Peruíbe à Ilha Comprida.
Mais do que somar quilômetros, a maior satisfação de uma expedição como essa é o que se vê pelo caminho. “A ideia foi fazer todo o percurso sem pressa, conhecendo as praias, cachoeiras e paisagens da região. E as pessoas que conheci pelo caminho fizeram com que a viagem fosse muito mais interessante”, conta.
